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A História da Família Castor e de São Bom Jesus dos Castores - 1ª Parte

Atualizado: há 6 dias

Pôster religioso com homem na roça erguendo imagem de São Bom Jesus ao pôr do sol, com texto dourado sobre fé e devoção.


Dedicatória


À minha mãe,


Jane Novaes dos Santos Soares Castor.


Por sua curiosidade incansável.


Por sua coragem de fazer perguntas quando muitos preferiam o silêncio.


Por ouvir histórias que estavam desaparecendo.


Por preservar memórias que poderiam ter sido esquecidas.


Por me ensinar que conhecer nossas raízes é também uma forma de honrar aqueles que vieram antes de nós.


Se esta história chegou até estas páginas, foi porque você se recusou a deixá-la morrer.

Com amor, gratidão e respeito.


Bruno Rafael Novaes dos Santos Soares Castor




Por que eu resolvi escrever sobre essa história ?


Durante muitos anos ouvi fragmentos de uma história.


Alguns pedaços vinham de meu avô.


Outros de minha avó.


Muitos vieram de minha mãe.


Alguns chegaram através de amigos da família, de moradores antigos e de pessoas que preservavam memórias que não estavam escritas em lugar algum.


Cada pessoa contava um pedaço.


Cada pessoa guardava uma lembrança.


Cada pessoa carregava uma versão.


E entre todas essas versões existia algo em comum: o silêncio.


Meu nome é Bruno Rafael Novaes dos Santos Soares Castor.


Sou filho de Oswaldo Soares Castor.


Neto de Antônio Soares Castor.


Bisneto de Joaquim Soares Castor.


Trineto de Francisco Soares Castor.


Ao longo da vida ouvi muitas histórias sobre a Fazenda dos Castores, sobre São Bom Jesus dos Castores, sobre a Festa dos Castores e sobre os acontecimentos que marcaram minha família.


Mas também percebi algo que sempre me chamou atenção.

Enquanto milhares de pessoas conheciam a festa, poucos conheciam a história dos Castores.


Enquanto muitos conheciam a devoção, poucos conheciam os homens e mulheres que viveram essa história desde o começo.


Com o passar dos anos, percebi que existia uma versão preservada dentro da própria família.


Uma versão transmitida de geração em geração.


Uma versão que raramente aparecia em livros, jornais, sites ou registros oficiais.


Não escrevo esta história para contestar a história registrada por outras pessoas.


Também não escrevo esta história para provar que uma versão é mais verdadeira do que outra.


Escrevo porque acredito que a memória da minha família merece ser preservada.


Grande parte do que relato aqui chegou até mim através do trabalho incansável de minha mãe, Jane Novaes dos Santos Soares Castor.


Foi ela quem ouviu histórias.


Foi ela quem fez perguntas.


Foi ela quem buscou respostas.


Foi ela quem conversou com meu avô Antônio Soares Castor, com minha avó Ana Rodrigues Porto Soares Castor e com o senhor Salim José Cury, um dos maiores conhecedores da história de Joaquim Soares Castor e de seus descendentes.


Sem essas conversas, muito provavelmente boa parte dessa memória teria desaparecido para sempre.


Ao escrever estas páginas, não pretendo apresentar verdades absolutas.


Existem fatos.


Existem documentos.


Existem registros.


Mas também existem memórias.


E as memórias fazem parte da história.


Alguns acontecimentos aqui relatados são certezas transmitidas pela família.


Outros são interpretações.


Outros permanecem como perguntas sem resposta.


Eu preservei todos eles porque acredito que as próximas gerações têm o direito de conhecer aquilo que chegou até nós.


Mais do que a história de uma imagem.


Mais do que a história de uma festa.


Mais do que a história de uma fazenda.


Esta é a história de pessoas.


De suas virtudes.


De seus erros.


De sua fé.


De seus conflitos.


De suas alegrias.


De suas tragédias.


E, acima de tudo, da busca por compreender o propósito de Deus através das gerações.


Se existe um desejo em meu coração ao escrever esta obra, não é que os leitores se impressionem com milagres, lendas ou acontecimentos extraordinários.



Meu desejo é que compreendam algo maior.


Que a verdadeira herança de Francisco Soares Castor não foi uma propriedade, uma festa ou uma imagem.


Foi a disposição de acolher pessoas.


Foi a disposição de servir.


Foi a disposição de aproximar pessoas de Deus.


Que os Castores do presente e do futuro possam reencontrar essa herança.


E que todos aqueles que lerem estas páginas compreendam que a maior história não é a da família Castor.


A maior história é a história da graça de Deus atuando através de pessoas imperfeitas.


É por isso que escrevo esta história.





Capítulo 1 – O silêncio dos Castores

A estranha distância entre a família Castor e a Festa dos Castores.


Capítulo 2 – Como esta história chegou até nós

Jane Novaes dos Santos Soares Castor, Ana Rodrigues Porto Soares Castor, Antônio Soares Castor e Salim José Cury.


Capítulo 4 – Quem foi Francisco Soares Castor

A vida do homem que se tornaria o personagem central da história.


Capítulo 5 – A Fazenda dos Castores

A extensão das terras, a vida rural e a ocupação da região.


Capítulo 6 – O povo que vivia na fazenda

As famílias, os cultivos, a cooperação e o modo de vida dos pioneiros.


Capítulo 7 – O homem que dividia terras

A filosofia de Francisco sobre trabalho, comunidade e prosperidade.


Capítulo 8 – O dia em que a terra revelou um segredo

A escavação do poço e a descoberta da imagem.


Capítulo 9 – A viagem para São José do Rio Preto

O primeiro encontro entre Francisco e o padre.


Capítulo 10 – Quando a imagem voltou para casa

O acontecimento que mudou a história da fazenda.


Capítulo 11 – O segundo retorno

O episódio que transformou uma curiosidade em devoção.


Capítulo 12 – Jesus quer ficar na fazenda

A frase atribuída ao padre e suas consequências.


Capítulo 13 – A varanda de Francisco

As primeiras reuniões de oração e o nascimento da devoção popular.


Capítulo 14 – Os caminhos dos romeiros

Como a notícia se espalhou por São José do Rio Preto e pela região.


Capítulo 15 – A prosperidade da Fazenda dos Castores

A tradição oral sobre abundância, colheitas e crescimento da comunidade.


Capítulo 16– A Festa dos Castores

O surgimento da celebração de 6 de agosto.


Capítulo 17 – Os trinta e três alqueires

A doação das terras e os relatos preservados pela família.


Capítulo 18– Os últimos anos de Francisco Soares Castor

O envelhecimento do fundador e suas decisões finais.


Capítulo 19 – Joaquim Soares Castor

O filho que herdou uma história impossível de carregar.


Capítulo 20 – O conflito

As diferentes versões preservadas pela tradição oral.


Capítulo 21 – O êxodo para Palestina

Por que Francisco e Joaquim deixaram a região dos Castores.


Capítulo 22– As tragédias da descendência

Os relatos familiares sobre sofrimento, perdas e afastamento.


Capítulo 23 – O mito do perdão

A crença transmitida entre gerações de que o descendente mais velho deveria pedir perdão a Jesus.


Capítulo 24 – Os Castores de hoje

A família espalhada pelo interior paulista e sua relação com a própria história.


Capítulo 25 – Reconciliação

A necessidade de reencontrar não apenas a história dos Castores, mas a Palavra de Deus.


Capítulo 26 - A voz que permaneceu

homenagem a Jane Novaes dos Santos Soares Castor e aos guardiões da memória



-Epílogo - A história continua

-Um sonho para o futuro



-Apêndice Genealógico da Família Castor



Capítulo 1



O silêncio dos Castores



Existem histórias que são contadas todos os anos.


Existem histórias que são celebradas em festas, procissões e cerimônias.


Existem histórias que atravessam gerações e permanecem vivas na memória de um povo.



Mas também existem histórias que são silenciadas.


Histórias que permanecem escondidas dentro das famílias.


Histórias que ninguém gosta de contar.


Histórias que sobrevivem apenas em fragmentos, em conversas interrompidas e em lembranças transmitidas discretamente entre pais, filhos e netos.


A história da família Castor é uma dessas histórias.


Durante muitos anos uma pergunta me acompanhou.


Como pode uma família estar tão próxima da origem de uma das mais conhecidas tradições religiosas da região e, ao mesmo tempo, parecer tão distante dela?


Como pode existir uma Festa dos Castores sem que os próprios Castores não se reúnem nessa celebração como uma grande família?


Como pode existir São Bom Jesus dos Castores sem que a maior parte dos descendentes de Francisco Soares Castor participe ativamente dessa memória?


Quanto mais eu observava, mais percebia que existia algo estranho.


Havia um silêncio.


Um silêncio antigo.


Um silêncio que parecia atravessar gerações.


Os mais velhos raramente falavam sobre determinados assuntos.


Quando falavam, mudavam de tema rapidamente.


Algumas perguntas ficavam sem resposta.


Outras recebiam respostas diferentes dependendo de quem era consultado.


Foi esse silêncio que despertou a curiosidade de minha mãe, Jane Novaes dos Santos nome de solteira mas após se casar com meu pai Osvaldo Soares Castor passou a carregar o sobrenome Soares Castor.


E foi esse mesmo silêncio que, anos mais tarde, despertou a minha.


Meu nome é Bruno Rafael Novaes dos Santos Soares Castor.


Sou filho de Oswaldo Soares Castor.


Neto de Antônio Soares Castor.


Bisneto de Joaquim Soares Castor.


Trineto de Francisco Soares Castor.


E esta não é apenas a história de uma fazenda.


Não é apenas a história de uma imagem.


Não é apenas a história de uma festa religiosa.


Esta é a história de uma família.


Uma família que ajudou a construir algo muito maior do que imaginava.


Uma família que viu milhares de pessoas se aproximarem da fé.


Uma família que conheceu prosperidade.


Mas que também conheceu conflitos, dores, perdas e afastamentos.


Ao longo dos anos, muitos contaram a história de São Bom Jesus dos Castores.


Poucos contaram a história dos Castores.


Esta minha história existe para tentar preencher essa lacuna.


Não para substituir a história oficial.


Não para negar os registros públicos.


Mas para preservar aquilo que viveu dentro da memória da família.


Porque quando uma memória desaparece, uma parte da história desaparece junto com ela.


E talvez tenha chegado o momento de os Castores contarem sua própria versão.



Capítulo 2



Como esta história chegou até nós


Toda história possui suas fontes.


Algumas são encontradas em livros.


Outras em documentos.


Outras em fotografias, cartas e registros oficiais.


A história que será contada possui uma característica diferente.


Grande parte dela foi preservada através da memória das pessoas.


Ela atravessou décadas sendo transmitida de uma geração para outra.


Passou de pais para filhos.


De avós para netos.


De pessoas que viveram os acontecimentos para aqueles que herdaram suas lembranças.


Por essa razão, antes de prosseguir, considero importante explicar como essas informações chegaram até mim.


Jane Novaes dos Santos Soares Castor

A principal responsável pela preservação desta memória familiar foi minha mãe, Jane Novaes dos Santos Soares Castor.


Jane sempre foi uma pessoa curiosa.


Desde jovem demonstrava interesse por história, genealogia, leitura e pesquisa.


Enquanto muitas pessoas ouviam histórias familiares apenas como curiosidades, minha mãe fazia perguntas.


Queria saber quem eram aquelas pessoas.


Queria entender os acontecimentos.


Queria descobrir como os fatos se conectavam.


Foi essa curiosidade que a levou a investigar a história da família Castor.


Durante muitos anos ela reuniu relatos, ouviu parentes e registrou informações que poderiam facilmente ter sido esquecidas pelo tempo.


Se hoje escrevo esta história, é porque ela decidiu não deixar essa memória desaparecer.


Antônio Soares Castor

Uma das principais fontes consultadas por minha mãe foi meu avô, Antônio Soares Castor.


Antônio era filho de Joaquim Soares Castor.


Portanto, neto direto de Francisco Soares Castor.


Era também o filho mais novo de Joaquim.


Sua posição dentro da família fazia dele uma ligação direta com as gerações mais antigas.


Entretanto, havia uma dificuldade.


Como acontecia com muitos membros da família Castor, meu avô raramente falava longamente sobre o passado.


Muitas respostas eram curtas.


Muitos assuntos eram evitados.


Certas histórias pareciam cercadas por um silêncio difícil de compreender.


Mesmo assim, fragmentos importantes da memória familiar chegaram até nós através dele.


Ana Rodrigues Porto Soares Castor

Diante das limitações encontradas nas conversas com Antônio, minha mãe passou a buscar informações com minha avó, Ana Rodrigues Porto Soares Castor.


Embora não tivesse nascido Castor, tornou-se parte da família ao se casar com Antônio.


Ao longo dos anos ouviu histórias, acompanhou conversas e conviveu com pessoas que conheceram diretamente membros das gerações anteriores.


Muitas vezes foi através dela que detalhes esquecidos puderam ser recuperados.


Ela ajudou a preencher lacunas deixadas pelo silêncio dos homens da família.


Salim José Cury

Mas nenhuma pessoa contribuiu tanto para a preservação dessa história quanto o senhor Salim José Cury.


Morador da cidade de Palestina, pertencente a uma tradicional família de origem libanesa, Salim José Cury tornou-se uma fonte preciosa de informações para minha mãe.


Durante muitos anos ele conviveu com membros da família Castor.


Conhecia a trajetória de Joaquim Soares Castor.


Conhecia seus filhos.


Conhecia histórias relacionadas aos irmãos de meu avô Antônio Soares Castor.


Conhecia acontecimentos que já estavam desaparecendo da memória coletiva.


Mais do que conhecer nomes e datas, conhecia pessoas.


Conhecia comportamentos.


Conhecia conflitos.


Conhecia acontecimentos que dificilmente seriam encontrados em documentos oficiais.


Foi através de suas conversas com minha mãe que muitas peças desta história começaram a se encaixar.


A tradição oral

É importante compreender que a tradição oral possui características próprias.


Nem sempre duas pessoas contam a mesma história exatamente da mesma maneira.


Os detalhes podem variar.


As interpretações podem mudar.


Alguns acontecimentos podem ser lembrados de formas diferentes por testemunhas distintas.


Isso acontece em qualquer família.


Isso acontece em qualquer comunidade.


Isso acontece em qualquer povo.


Por esse motivo, o leitor encontrará ao longo desta obra momentos em que diferentes versões serão apresentadas.


Não porque exista intenção de confundir.


Mas porque a honestidade exige que a memória seja registrada exatamente como chegou até nós.


Existem fatos amplamente aceitos por todos os relatos.


Existem acontecimentos sobre os quais quase ninguém diverge.


Mas também existem episódios cercados por dúvidas.


Quando isso acontecer, todas as versões relevantes serão apresentadas.


Memória e verdade

Esta história não pretende substituir documentos históricos.


Também não pretende disputar espaço com pesquisas acadêmicas.


Seu propósito é diferente.


Seu propósito é preservar a memória.


Memórias podem não responder todas as perguntas.


Mas frequentemente revelam aspectos da história que os documentos jamais registraram.


Os documentos registram acontecimentos.


As memórias registram sentimentos.


Os documentos registram datas.


As memórias registram significados.


Os documentos registram fatos.


As memórias registram pessoas.


Foi através dessas pessoas que a história da família Castor chegou até mim.


E é através deste site que espero entregá-la às próximas gerações.




Capítulo 3



Em busca das origens da família Castor



Toda família possui um ponto onde a memória termina.


Chega um momento em que os avós já não sabem.


Os bisavós tornam-se apenas nomes.


Os documentos desaparecem.


As lembranças se perdem.


E o passado transforma-se em perguntas.


Com a família Castor não é diferente.


A tradição oral preservada por nossos parentes alcança Francisco Soares Castor, Joaquim Soares Castor e as gerações seguintes.


Mas quando tentamos avançar para períodos anteriores, entramos em um território onde a memória familiar já não consegue oferecer respostas definitivas.


É nesse momento que o próprio sobrenome Castor passa a se tornar uma pista.


Uma pista que pode ajudar a compreender de onde vieram os ancestrais que, muitos anos depois, estariam ligados à Fazenda dos Castores.


O sobrenome Castor

O sobrenome Castor possui origens antigas e diferentes explicações históricas.


Em diversos períodos da história europeia, o nome aparece associado tanto à tradição cristã quanto a antigas raízes greco-romanas.


Uma das possibilidades está ligada à devoção a santos cristãos chamados Castor.


Entre eles destaca-se São Castor de Karden, sacerdote do século IV que viveu às margens do rio Mosela, na atual Alemanha.


Conhecido por sua vida de oração, simplicidade e dedicação à formação de comunidades cristãs, tornou-se uma figura venerada em diversas regiões da Europa.


Também existiram outros santos com o mesmo nome, como São Castor de Apt, bispo da Provença, na França, e São Castor de Tarso, mártir da Igreja Primitiva.


Durante séculos, era comum que famílias adotassem sobrenomes inspirados em santos pelos quais possuíam especial devoção.


Por essa razão, alguns pesquisadores consideram possível que determinadas linhagens Castor tenham surgido a partir dessa tradição religiosa.


A hipótese ibérica

Outra possibilidade aponta para a Península Ibérica.


Regiões como Galiza, Minho e Trás-os-Montes registraram ao longo dos séculos famílias utilizando o sobrenome Castor.


Segundo alguns estudos genealógicos, parte dessas famílias teria migrado entre o norte da Espanha e o norte de Portugal, estabelecendo-se posteriormente em outras regiões do mundo português.


Como grande parte dos colonizadores que chegaram ao Brasil veio justamente dessas regiões, não seria impossível que os ancestrais da família Castor brasileira tivessem seguido esse mesmo caminho.


Entretanto, até o presente momento, essa hipótese permanece sem confirmação documental para a linhagem específica de Francisco Soares Castor.


Cristãos-novos e a memória sefardita

Existe ainda uma terceira possibilidade frequentemente discutida por estudiosos dos sobrenomes ibéricos.


Durante os séculos XV e XVI, muitos judeus sefarditas foram obrigados a converter-se ao cristianismo em Portugal e na Espanha.


Esses convertidos passaram a ser conhecidos como cristãos-novos.


Muitas famílias adotaram novos sobrenomes para facilitar sua integração à sociedade da época.


Alguns pesquisadores sugerem que sobrenomes ligados a animais, plantas, localidades ou nomes religiosos foram utilizados por diferentes famílias nesse contexto.


Em determinadas pesquisas genealógicas, o sobrenome Castor aparece ocasionalmente associado a essa possibilidade.


Entretanto, não existe atualmente qualquer documento conhecido que permita afirmar que a família Castor ligada a Francisco Soares Castor possua origem sefardita.


Trata-se apenas de uma hipótese histórica relacionada ao sobrenome.


Entre a história e a memória

Talvez a verdade esteja registrada em algum documento ainda não encontrado.


Talvez esteja guardada em algum cartório, arquivo paroquial ou registro de imigração.


Ou talvez jamais seja completamente conhecida.


Mas existe algo que pode ser afirmado com segurança.


Independentemente de sua origem mais antiga, os Castor deixaram sua marca na história do interior paulista.


Foi através de Francisco Soares Castor que o sobrenome passou a fazer parte da memória de uma região inteira.


Foi através da Fazenda dos Castores que esse nome se tornou conhecido.


Foi através das gerações que vieram depois dele que a história continuou sendo transmitida.


Por isso, embora as origens mais remotas permaneçam envoltas em mistério, a história dos Castor encontra em Francisco Soares Castor o primeiro personagem cuja memória continua viva de forma clara entre seus descendentes.


E é justamente por ele que nossa história prossegue.





Capítulo 4



Quem foi Francisco Soares Castor


Antes da imagem.


Antes das romarias.


Antes da Festa dos Castores.


Antes de São Bom Jesus dos Castores.


Existiu um homem.


Seu nome era Francisco Soares Castor.


Ao longo dos anos, milhares de pessoas ouviram falar da festa.


Muitas ouviram falar da imagem.


Outras conheceram a devoção.


Mas poucas conheceram verdadeiramente o homem que estava presente no início de toda essa história.


Segundo a tradição preservada pela família Castor, Francisco Soares Castor nasceu em 1845.


Era um tempo muito diferente daquele que conhecemos hoje.


O interior paulista ainda estava em processo de ocupação.


As cidades eram pequenas.


As estradas praticamente inexistiam.


As viagens eram longas e difíceis.


Grande parte da população vivia diretamente da terra.


A sobrevivência dependia do trabalho diário.


Foi nesse mundo que Francisco cresceu.


Quando pensamos em um grande proprietário de terras nos dias atuais, muitas vezes imaginamos riqueza, influência e conforto.


Mas a realidade do século XIX era diferente.


Naquele tempo, possuir terras significava assumir responsabilidades enormes.


Significava abrir caminhos.


Construir cercas.


Encontrar água.


Lidar com secas.


Resolver conflitos.


Proteger famílias.


Garantir produção.


A terra não era um símbolo de riqueza fácil.


Era um símbolo de trabalho constante.


Segundo os relatos preservados pelos descendentes, Francisco compreendia essa responsabilidade.


A Fazenda dos Castores possuía uma extensão impressionante para os padrões da época.


As memórias familiares indicam que suas terras se estendiam entre o Córrego Felicidade hoje bairro São Deocleciano no município de São José do Rio Preto e o Rio Turvo na divisa do munícipio de Nova Granada com o munícipio de Icém todos no Estado de São Paulo.


Era uma região composta por matas, áreas nativas, campos e pequenos núcleos de ocupação humana.


Mas a característica mais marcante de Francisco não era a quantidade de terras que possuía.


Era a forma como se relacionava com elas.


Segundo a tradição oral da família, Francisco acreditava que uma terra sem pessoas produzia pouco.


Por essa razão, incentivava a ocupação das áreas disponíveis.


Convidava famílias para viverem na fazenda.


Cedia espaços para cultivo.


Permitindo que homens e mulheres construíssem suas vidas naquele território.


Com o passar do tempo, uma verdadeira comunidade começou a surgir.


As famílias cultivavam suas roças.


Criavam animais.


Produziam alimentos.


E colaboravam entre si.


Francisco recebia uma pequena parcela da produção.


Mas, segundo os relatos familiares, esses recursos não eram destinados à acumulação de riqueza.


Serviam para adquirir ferramentas, equipamentos, animais de trabalho e melhorias para toda a comunidade.


Na prática, sua prosperidade estava ligada à prosperidade daqueles que viviam em suas terras.


Essa forma de administração criou um ambiente de cooperação.


Os moradores não viam Francisco apenas como proprietário.


Viam-no como alguém que compartilhava das mesmas dificuldades que eles enfrentavam.


Ele trabalhava.


Capinava.


Abria caminhos.


Participava da manutenção da fazenda.


Escavava poços.


Buscava soluções para os problemas que surgiam.


Era um líder pelo exemplo.


Talvez seja justamente por isso que sua memória tenha permanecido viva durante tantas gerações.


Quando os relatos familiares falam sobre Francisco Soares Castor, raramente destacam sua condição de proprietário.


Quase sempre destacam sua disposição para servir.


Seu espírito de acolhimento.


Sua capacidade de reunir pessoas.


Sua preocupação com aqueles que viviam ao seu redor.


Sem saber, Francisco estava construindo algo que iria muito além de uma fazenda.


Estava construindo uma comunidade.


Uma comunidade baseada em trabalho, cooperação, fé e hospitalidade.


Ainda faltavam muitos anos para que seu nome fosse associado à imagem encontrada na terra.


Ainda faltavam muitos anos para o nascimento das romarias.


Ainda faltavam muitos anos para a Festa dos Castores.


Mas os alicerces já estavam sendo lançados.


Porque, antes de qualquer milagre, existia um homem.


E antes de qualquer devoção, existia uma comunidade.


E ambos tinham o mesmo nome em sua origem.


Francisco Soares Castor 1845 - 1925.

Capítulo 5



A Fazenda dos Castores



Muito antes de existir o bairro dos Castores.


Muito antes das estradas asfaltadas.


Muito antes das cidades modernas que hoje ocupam a região.


Existia a Fazenda dos Castores.


Para compreender a história de Francisco Soares Castor, é necessário compreender primeiro o lugar onde ele viveu.


A Fazenda dos Castores não era apenas uma propriedade rural.


Segundo a tradição preservada pela família Castor, tratava-se de uma vasta extensão de terras que se estendia entre dois importantes marcos geográficos: o Córrego Felicidade e o Rio Turvo.


As gerações mais antigas da família transmitiram diferentes interpretações sobre os limites exatos da propriedade.


Alguns relatos situam o limite do Rio Turvo próximo das atuais regiões de Onda Verde.


Outros mencionam áreas mais próximas das divisas entre Nova Granada e Icém.


Apesar dessas diferenças, todos os relatos convergem para uma mesma conclusão: a Fazenda dos Castores possuía dimensões extraordinárias para os padrões da época.


Hoje é difícil imaginar essa realidade.


Atualmente a região é formada por cidades, bairros, rodovias, propriedades rurais delimitadas e extensas áreas cultivadas.


Mas no final do século XIX o cenário era completamente diferente.


Grande parte da terra permanecia coberta por vegetação nativa.


As matas eram densas.


Os caminhos eram estreitos.


As viagens eram lentas.


O isolamento fazia parte da vida cotidiana.


A presença humana era muito menor.


Os recursos eram escassos.


E quase tudo dependia do esforço físico.


Não havia máquinas modernas.


Não havia tratores.


Não havia energia elétrica.


Não havia sistemas mecanizados de irrigação.


A sobrevivência dependia diretamente da capacidade das pessoas de trabalhar a terra.


Encontrar água era uma necessidade constante.


Abrir novas áreas de cultivo exigia meses de esforço.


Construir uma simples moradia podia representar semanas de trabalho.


Foi nesse ambiente que a Fazenda dos Castores começou a crescer.


Segundo a tradição oral da família, Francisco Soares Castor acreditava que uma terra só cumpria seu propósito quando era ocupada por pessoas dispostas a trabalhar.


Por isso, incentivava a chegada de novas famílias.


Homens e mulheres que buscavam oportunidades encontravam espaço para viver, plantar e construir suas vidas.


Aos poucos, pequenas moradias surgiam em diferentes pontos da fazenda.


As roças multiplicavam-se.


Novos cultivos apareciam.


A criação de animais aumentava.


As relações entre os moradores tornavam-se cada vez mais próximas.


Formava-se uma verdadeira comunidade.


As famílias compartilhavam ferramentas.


Ajudavam-se durante as colheitas.


Cooperavam em construções.


Uniam forças durante períodos de seca ou dificuldade.


A vida era simples.


Mas exigia solidariedade.


Ninguém prosperava sozinho.


Segundo os relatos preservados pelos descendentes, essa cultura de cooperação tornou-se uma das marcas mais importantes da Fazenda dos Castores.


O sucesso de uma família beneficiava todas as outras.


A abundância de uma colheita significava alimento para muitos.


A construção de um poço ajudava diversas propriedades.


Uma nova estrada facilitava o acesso de toda a comunidade.


Pouco a pouco, a fazenda deixava de ser apenas uma área de produção agrícola.


Transformava-se em um lugar onde pessoas construíam raízes.


Ali nasceram filhos.


Ali foram formadas famílias.


Ali cresceram gerações inteiras.


Ali nasceram filhos.


Ali foram formadas famílias.


Ali cresceram gerações inteiras.


Foi nesse ambiente que nasceu Joaquim Soares Castor em 1876, filho de Francisco Soares Castor.


Décadas depois, também nasceriam naquele mesmo solo diversos membros da geração seguinte da família, entre eles João Soares Castor, Francisco Soares Castor, Cesário Soares Castor e Eudócia Soares Castor.


A Fazenda dos Castores não estava apenas formando uma comunidade.


Estava formando gerações.


Estava construindo uma linhagem que permaneceria ligada àquela terra por muitos anos.


Foi nesse ambiente que a história da família Castor começou a se entrelaçar com a história da própria região.


Segundo a tradição preservada pelos descendentes, áreas que hoje pertencem aos municípios de Onda Verde e Nova Granada faziam parte da antiga extensão territorial da Fazenda dos Castores.


Curiosamente, as datas de fundação desses municípios são posteriores aos acontecimentos que deram origem à Festa dos Castores, sugerindo que a comunidade religiosa já existia antes mesmo da formação de algumas cidades que hoje compõem a região.


Entretanto, naquele momento, ninguém imaginava que aquelas terras ainda se tornariam conhecidas muito além de seus limites naturais.


Ninguém imaginava que pessoas viriam de cidades distantes para visitar aquele lugar.


Ninguém imaginava que a Fazenda dos Castores se transformaria em referência religiosa para milhares de pessoas.


Tudo isso ainda estava por acontecer.


Por enquanto, a Fazenda dos Castores era apenas aquilo que seus moradores conheciam.


Um lugar de trabalho.


Um lugar de esperança.


Um lugar de fé simples.


Um lugar onde homens e mulheres lutavam diariamente para transformar a terra em sustento.


Mas, sem perceber, estavam preparando o cenário para um acontecimento que mudaria para sempre a história daquela região.


E tudo começaria com algo aparentemente comum.


A busca por água.




Capítulo 6



O povo que vivia na fazenda



Quando a história da Fazenda dos Castores é contada, o nome de Francisco Soares Castor naturalmente ocupa posição de destaque.


Foi ele quem administrou as terras.


Foi ele quem acolheu famílias.


Foi ele quem esteve presente nos acontecimentos que marcaram o nascimento da devoção ao Bom Jesus dos Castores.


Mas a Fazenda dos Castores nunca foi obra de um único homem.


Ela foi construída por muitas mãos.


Por muitas famílias.


Por muitas histórias que o tempo quase apagou.


Quando observamos o passado através da tradição oral preservada pelos descendentes, percebemos que a fazenda funcionava como uma grande comunidade rural.


Homens e mulheres chegavam em busca de uma oportunidade para viver da terra.


Alguns vinham de regiões próximas.


Outros percorriam longas distâncias carregando poucas posses e muitos sonhos.


Ao chegarem à Fazenda dos Castores encontravam algo raro para a época.


Encontravam espaço para trabalhar.


Encontravam a possibilidade de construir uma casa.


Encontravam terra para cultivar.


E encontravam uma comunidade disposta a acolhê-los.


Segundo os relatos preservados pela família, Francisco Soares Castor compreendia que uma terra só prosperava quando as pessoas prosperavam junto com ela.


Por essa razão, incentivava a formação de novos núcleos familiares dentro da propriedade.


Cada família passava a cuidar de uma área de cultivo.


Ali plantavam aquilo que garantiria o sustento de seus filhos.


O trabalho começava antes do nascer do sol.


Os homens saíam para as lavouras.


As mulheres dividiam seu tempo entre os cuidados da casa, a preparação dos alimentos, a criação dos filhos e diversas atividades ligadas à produção rural.


As crianças cresciam aprendendo desde cedo o valor do trabalho.


Não havia luxo.


Não havia facilidade.


Mas existia dignidade.


A terra oferecia aquilo que cada família estivesse disposta a conquistar através do esforço.


Os cultivos variavam conforme as necessidades da comunidade.


Milho.


Feijão.


Arroz.


Mandioca.


Batata.


Hortaliças.


Frutas.


Tudo aquilo que pudesse alimentar as famílias e garantir a sobrevivência durante os períodos mais difíceis.


Além da agricultura, havia a criação de animais.


Galinhas.


Porcos.


Bovinos.


Animais de tração utilizados no transporte e nas atividades da fazenda.


Quase nada era desperdiçado.


Cada recurso possuía valor.


Cada colheita representava meses de trabalho.


Cada safra bem-sucedida era motivo de agradecimento.


Mas talvez a característica mais marcante da Fazenda dos Castores não fosse a produção agrícola.


Era a cooperação.


Os moradores entendiam que certas tarefas eram grandes demais para serem realizadas por uma única família.


Quando alguém precisava levantar uma casa, os vizinhos ajudavam.


Quando uma nova área precisava ser aberta para plantio, várias pessoas trabalhavam juntas.


Quando surgia a necessidade de cavar um poço, construir uma cerca ou recuperar um caminho, a comunidade se mobilizava.


A ajuda mútua não era vista como favor.


Era vista como parte natural da vida.


Todos sabiam que mais cedo ou mais tarde também precisariam da ajuda dos outros.


Em períodos de seca, compartilhavam recursos.


Em períodos de fartura, compartilhavam alimentos.


Quando uma família enfrentava dificuldades, as demais procuravam auxiliar da forma que podiam.


A sobrevivência dependia da união.


Foi nesse ambiente que crianças nasceram.


Foi nesse ambiente que casamentos aconteceram.


Foi nesse ambiente que novas gerações começaram a surgir.


A Fazenda dos Castores não era apenas um conjunto de terras.


Era um lugar onde pessoas construíam suas vidas.


Ali nasceram amizades.


Ali surgiram compadrios.


Ali foram formadas famílias que permaneceriam ligadas àquela região por décadas.


Com o passar do tempo, os moradores deixaram de enxergar a fazenda apenas como local de trabalho.


Ela tornou-se um lar.


Um lugar de pertencimento.


Um lugar onde cada família deixava um pouco de si.


E foi justamente entre essas pessoas simples, acostumadas ao trabalho duro e à cooperação diária, que aconteceria o episódio que mudaria para sempre a história da Fazenda dos Castores.


Um acontecimento que começaria de forma inesperada.


Não em uma igreja.


Não em uma cidade.


Não em um grande centro religioso.


Mas em um simples trabalho de escavação realizado na terra.


A mesma terra que aquelas famílias cultivavam todos os dias.


A mesma terra que sustentava suas vidas.


A mesma terra que, em breve, revelaria um segredo capaz de transformar para sempre o destino daquela comunidade.




Capítulo 7



O homem que dividia terras



Toda grande comunidade nasce de uma escolha.


Algumas nascem da força.


Outras nascem da riqueza.


Outras nascem do poder.


A comunidade que surgiu na Fazenda dos Castores nasceu de algo diferente.


Nasceu da disposição de compartilhar.


Segundo a tradição preservada pela família Castor, Francisco Soares Castor possuía uma visão incomum para sua época.


Enquanto muitos proprietários viam suas terras como patrimônio a ser protegido e acumulado, Francisco enxergava a terra como uma responsabilidade.


Para ele, uma fazenda não deveria existir apenas para beneficiar seu proprietário.


Ela deveria beneficiar todos aqueles que dependiam dela para viver.


Talvez por isso a Fazenda dos Castores tenha crescido de maneira tão diferente de outras propriedades rurais da região.


Francisco compreendia que não conseguiria cultivar sozinho toda a extensão de suas terras.


Também compreendia que grandes áreas improdutivas serviam pouco à comunidade.


Por essa razão, passou a convidar famílias para ocuparem partes da propriedade.


Não se tratava apenas de permitir que alguém morasse ali.


Tratava-se de oferecer uma oportunidade.


Uma oportunidade de construir uma casa.


De plantar uma lavoura.


De criar os próprios filhos.


De formar uma nova família.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, os moradores recebiam áreas para cultivo e, em troca, contribuíam com uma pequena parte daquilo que produziam.


Mas essa contribuição não era vista como exploração.


Ela fazia parte de um acordo coletivo.


Os recursos obtidos retornavam para a própria comunidade.


Ferramentas eram adquiridas.


Estruturas eram construídas.


Animais de trabalho eram comprados.


Melhorias eram realizadas.


De certa forma, todos participavam do crescimento da fazenda.


E todos se beneficiavam dele.


Essa forma de organização criou um ambiente raro para a época.


As pessoas não enxergavam Francisco apenas como dono das terras.


Enxergavam-no como alguém comprometido com o bem-estar da comunidade.


Sua liderança não vinha da distância.


Vinha da presença.


Francisco trabalhava junto.


Capinava.


Abria caminhos.


Consertava cercas.


Participava da abertura de poços.


Ajudava na solução dos problemas que surgiam.


Era comum vê-lo realizando as mesmas tarefas executadas pelos demais moradores.


Por isso, quando falavam dele, os mais antigos raramente destacavam sua posição de proprietário.


Falavam de sua disposição para servir.


Falavam de sua generosidade.


Falavam de sua capacidade de reunir pessoas.


Mas talvez o aspecto mais importante de sua liderança fosse a forma como encarava aqueles que chegavam à fazenda.


Segundo a tradição familiar, Francisco acreditava que ninguém deveria ser rejeitado por falta de recursos.


Homens que buscavam trabalho encontravam oportunidade.


Famílias que procuravam um lugar para recomeçar encontravam espaço.


Pessoas que precisavam de ajuda encontravam acolhimento.


Essa característica ajudou a transformar a Fazenda dos Castores em muito mais do que uma propriedade rural.


Ela se tornou uma comunidade.


Uma comunidade onde o crescimento de um beneficiava muitos.


Onde a prosperidade era compartilhada.


Onde o trabalho coletivo possuía valor.


E onde a hospitalidade era considerada uma virtude.


Anos mais tarde, quando milhares de pessoas começassem a visitar a Fazenda dos Castores por motivos religiosos, essa cultura de acolhimento já estaria profundamente enraizada entre seus moradores.


As portas abertas para os romeiros não surgiriam de repente.


Elas seriam apenas a continuação de algo que já existia.


Francisco Soares Castor havia passado anos ensinando, através de suas atitudes, que uma terra só alcança seu verdadeiro valor quando serve às pessoas.


Sem perceber, ele estava preparando a comunidade para um acontecimento que mudaria para sempre sua história.


Um acontecimento que começaria durante uma atividade comum do cotidiano rural.


A abertura de um poço.


A busca por água.


E o encontro inesperado com algo que permanecera escondido sob a terra por um tempo que ninguém seria capaz de determinar.


A partir daquele momento, a história da Fazenda dos Castores jamais seria a mesma.



Capítulo 8



O dia em que a terra revelou um segredo



Existem acontecimentos que transformam a história de uma família.


Existem acontecimentos que transformam a história de uma comunidade.


E existem acontecimentos que atravessam gerações.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, um desses acontecimentos ocorreu durante uma atividade comum da vida rural.


Não aconteceu em uma igreja.


Não aconteceu durante uma celebração religiosa.


Não aconteceu diante de uma multidão.


Aconteceu durante o trabalho.


Como tantas outras vezes, Francisco Soares Castor estava envolvido nas tarefas da fazenda.


A comunidade crescia.


Novas famílias chegavam.


Novas áreas eram ocupadas.


A necessidade de água tornava-se cada vez mais importante.


Encontrar água era uma questão de sobrevivência.


Sem ela não havia lavoura.


Não havia criação de animais.


Não havia comunidade.


Por isso, a abertura de poços fazia parte da rotina daqueles pioneiros.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, foi durante uma dessas escavações que algo inesperado aconteceu.


Enquanto trabalhava na abertura de um poço, Francisco atingiu um objeto enterrado.


A princípio, nada indicava que se tratava de algo incomum.


Pedras, raízes e troncos enterrados eram obstáculos frequentes nesse tipo de trabalho.


Mas logo ele percebeu que havia encontrado algo diferente.


O impacto da ferramenta atingiu uma peça de madeira.


Segundo a tradição familiar, a força do golpe acabou desprendendo parte dessa peça.


Ao observar melhor, Francisco percebeu que não estava diante de um pedaço comum de madeira.


Tratava-se da cabeça de uma imagem.


Surpreso com a descoberta, interrompeu a escavação e passou a remover cuidadosamente a terra ao redor do objeto.


Quanto mais escavava, mais percebia que havia algo maior enterrado naquele local.


Com paciência, retirou o restante da peça.


Era o corpo da imagem.


A cabeça que havia se desprendido pertencia àquela escultura.


Segundo os relatos preservados pela família, a imagem era feita de madeira e encontrava-se completamente coberta pela terra que a escondera por um período desconhecido.


Ninguém sabia como ela havia chegado ali.


Ninguém sabia quem a havia colocado naquele lugar.


Ninguém sabia havia quanto tempo permanecia enterrada.


Era um mistério.


Francisco levou a imagem para sua residência.


Ali, diante da curiosidade dos moradores que já começavam a ouvir falar da descoberta, limpou cuidadosamente a peça.


A terra acumulada foi removida.


A madeira voltou a aparecer.


A cabeça que havia sido desprendida durante a escavação foi recolocada.


Segundo a tradição familiar, os danos não eram graves e a peça pôde ser restaurada de forma simples.


À medida que a notícia se espalhava, mais pessoas se aproximavam para observar a imagem.


Mas é importante compreender um detalhe frequentemente esquecido pelas versões mais resumidas da história.


Naquele primeiro momento, ninguém falava em milagre.


Ninguém falava em aparições.


Ninguém falava em acontecimentos sobrenaturais.


Os moradores da Fazenda dos Castores eram pessoas profundamente religiosas.


Respeitavam imagens religiosas.


Respeitavam a Igreja.


Respeitavam a fé.


Mas também eram pessoas práticas.


Para eles, aquela era uma imagem encontrada durante um trabalho de escavação.


Uma descoberta importante.


Uma descoberta curiosa.


Mas ainda assim uma descoberta.


Seguindo o costume da época, Francisco acreditava que a atitude correta seria apresentar a imagem à autoridade religiosa da região.


Em São José do Rio Preto encontrava-se o padre responsável por orientar a vida religiosa daquela parte do interior paulista.


Por essa razão, decidiu que no dia seguinte viajaria até a cidade para entregar a peça à Igreja.


Naquela noite, a imagem permaneceu em sua residência.


Segundo os relatos preservados pelos descendentes, foi colocada em local visível, próxima à varanda da casa.


Ali permaneceu enquanto Francisco se preparava para a viagem que faria na manhã seguinte.


O que ele não sabia era que aquela seria apenas a primeira etapa de uma história que atravessaria gerações.


Uma história que transformaria sua fazenda.

Transformaria sua família.


E transformaria para sempre a memória daquela região.


Naquele momento, porém, Francisco acreditava estar apenas cumprindo seu dever.


Levar uma imagem encontrada na terra para o padre de São José do Rio Preto.


Nada mais.


Ou pelo menos era isso que todos imaginavam.




Capítulo 9



A viagem para São José do Rio Preto



Na manhã seguinte à descoberta da imagem, Francisco Soares Castor acordou com uma decisão já tomada.


Como homem de fé e respeito às tradições religiosas de sua época, acreditava que a imagem encontrada na Fazenda dos Castores deveria ser entregue à autoridade religiosa da região.


Era o procedimento natural.


Era o procedimento correto.


Afinal, imagens sagradas pertenciam à Igreja.


Por isso, após preparar-se para a viagem, Francisco colocou a imagem consigo e partiu em direção a São José do Rio Preto.


Hoje essa viagem parece simples.


Mas no final do século XIX a realidade era completamente diferente.


Não existiam rodovias.


Não existiam automóveis.


Não existiam os meios de comunicação que conhecemos atualmente.


Os deslocamentos eram realizados por caminhos de terra, trilhas abertas pelos viajantes e antigas estradas boiadeiras que cortavam o interior paulista.


Cada viagem exigia tempo.


Exigia esforço.


Exigia planejamento.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, Francisco percorreu o trajeto levando consigo a imagem encontrada no poço.


Não havia expectativa de que algo extraordinário acontecesse.


Naquele momento, tratava-se apenas de uma peça religiosa descoberta durante um trabalho de escavação.


Ao chegar a São José do Rio Preto, procurou o padre responsável pela região.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, apresentou a imagem ao sacerdote e contou as circunstâncias em que ela havia sido encontrada.

O padre recebeu a peça.


Observou seu estado de conservação.


Ouviu o relato de Francisco.


E informou que ficaria responsável por sua guarda.


Era uma decisão natural.


A imagem permaneceria sob os cuidados da Igreja.


Com a tarefa concluída, Francisco despediu-se do sacerdote.


Ainda havia muito trabalho esperando por ele na Fazenda dos Castores.


Poços precisavam ser abertos.


Terras precisavam ser cuidadas.


Famílias dependiam daquele trabalho diário.


Por isso, iniciou sua viagem de retorno.


Segundo a tradição oral da família, nada parecia fora do comum durante o trajeto.


Mas, ao aproximar-se da fazenda, algo chamou sua atenção.


Mesmo à distância, percebeu uma movimentação incomum próxima de sua residência.


Algumas pessoas estavam reunidas diante da casa.


Outras caminhavam de um lado para outro.


A princípio, Francisco imaginou que algum problema pudesse ter ocorrido durante sua ausência.


Talvez alguma emergência.


Talvez algum acidente.


Talvez alguma questão envolvendo os moradores da comunidade.


Mas, conforme se aproximava, percebeu que o motivo da agitação era outro.


Sua esposa caminhou em sua direção.


Segundo a tradição preservada pela família Castor, ela parecia confusa.


Quase sem saber como explicar o que havia acontecido.


Ao encontrá-lo, fez uma pergunta simples.


Uma pergunta que Francisco não compreendeu imediatamente.


— Francisco, você não levou a imagem para o padre em São José do Rio Preto?

A pergunta pareceu estranha.


Ele havia passado boa parte do dia justamente realizando essa tarefa.


Por isso respondeu sem hesitar.

— Sim. Levei.


A esposa insistiu.

— Tem certeza?


Aquela segunda pergunta o deixou ainda mais confuso.


Como poderia não ter certeza?


Ele mesmo havia entregado a imagem ao sacerdote.


Mas antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, ela apontou para a casa.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, Francisco então viu aquilo que parecia impossível.


A imagem estava lá.


No mesmo local onde havia permanecido antes da viagem.


Na mesma residência de onde ele a havia retirado naquela manhã.


Por alguns instantes ninguém soube explicar o que estava acontecendo.


Os moradores presentes também demonstravam surpresa.


Alguns tentavam encontrar uma explicação simples.


Outros acreditavam que deveria existir algum engano.


Talvez a imagem nunca tivesse saído dali.


Talvez houvesse outra peça semelhante.


Talvez alguém estivesse confundindo os acontecimentos.


Mas Francisco sabia exatamente o que havia feito.


Ele havia levado a imagem para São José do Rio Preto.


Ele havia entregue a imagem ao padre.


Ele havia retornado sozinho.


E agora a mesma imagem encontrava-se novamente em sua residência.


A notícia espalhou-se rapidamente entre os moradores da Fazenda dos Castores.


As conversas multiplicaram-se.


As perguntas aumentaram.


Mas as respostas não surgiam.


Naquela noite, segundo a tradição oral preservada pela família, ninguém compreendia o significado do que havia acontecido.


Alguns viam apenas um mistério.


Outros enxergavam um sinal.


Mas todos concordavam em uma coisa.


Algo fora do comum havia acontecido.


E Francisco Soares Castor precisava decidir o que fazer.


Na manhã seguinte, tomaria uma nova decisão.


Voltaria a São José do Rio Preto.


Voltaria a procurar o padre.


E tentaria mais uma vez entregar a imagem aos cuidados da Igreja.


Sem imaginar que os acontecimentos estavam apenas começando.



Capítulo 10



Quando a imagem voltou para casa



Naquela noite, poucas pessoas conseguiram dormir tranquilamente na Fazenda dos Castores.


A descoberta da imagem já havia causado surpresa.


Mas seu retorno inesperado após a viagem a São José do Rio Preto provocara algo ainda mais profundo.


Confusão.


Curiosidade.


Espanto.


Ninguém conseguia compreender o que havia acontecido.


Francisco Soares Castor era um homem prático.


Acostumado a lidar com problemas reais.


Secas.


Colheitas.


Animais.


Poços.


Estradas.


Por isso, procurava encontrar explicações para aquilo que via.


Mas quanto mais refletia, menos respostas encontrava.


Ele sabia o que havia feito.


Sabia que entregara a imagem ao padre.


Sabia que a deixara em São José do Rio Preto.


Sabia que havia retornado sozinho.


E mesmo assim a imagem estava novamente em sua casa.


Na manhã seguinte tomou uma decisão.


Voltaria à cidade.


Precisava conversar novamente com o sacerdote.


Precisava compreender o que havia acontecido.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, Francisco colocou novamente a imagem sob seus cuidados e iniciou mais uma viagem até São José do Rio Preto.


Dessa vez, porém, a viagem possuía um significado diferente.


Não se tratava apenas de entregar uma imagem religiosa.


Tratava-se de buscar respostas.


Ao chegar à cidade, procurou imediatamente o padre.


Mas antes mesmo que pudesse explicar o motivo de sua visita, ouviu algo inesperado.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, o próprio sacerdote demonstrava inquietação.


Também havia algo que ele precisava contar.


A imagem não estava mais na paróquia.


Ela havia desaparecido.


Francisco então relatou o que encontrara ao retornar para casa.


Disse que a imagem estava novamente na Fazenda dos Castores.


O padre ouviu atentamente.


Ambos sabiam que estavam diante de um acontecimento difícil de explicar.


Mesmo assim decidiram repetir o procedimento.


Mais uma vez a imagem permaneceria sob os cuidados da Igreja.


Mas dessa vez seriam tomadas precauções adicionais.


Segundo a tradição familiar, o sacerdote colocou a imagem dentro de um armário de madeira na paróquia.


O móvel foi fechado.


A imagem permaneceu guardada.


E Francisco iniciou sua viagem de retorno.


Talvez acreditasse que agora tudo voltaria à normalidade.


Talvez imaginasse que o mistério finalmente terminaria.


Mas os acontecimentos tomariam outro rumo.


À medida que se aproximava da Fazenda dos Castores, percebeu novamente uma movimentação incomum.


Dessa vez, porém, o número de pessoas era ainda maior.


Homens.


Mulheres.


Crianças.


Moradores da fazenda.


Todos pareciam reunidos diante de sua residência.


Antes mesmo de chegar, ouviu vozes.


Ouviu pessoas chamando seu nome.


Ouviu comentários agitados.


E então recebeu a notícia.


A imagem havia retornado.


Novamente.


Segundo a tradição oral preservada pelos descendentes, a peça encontrava-se mais uma vez em sua residência.


No mesmo lugar onde os moradores haviam se acostumado a vê-la.


O espanto tomou conta da comunidade.


Se na primeira vez ainda era possível imaginar algum engano, agora essa possibilidade tornava-se cada vez mais difícil.


O acontecimento repetira-se.


E diante de muitas testemunhas.


Naquele dia, segundo os relatos familiares, algo começou a mudar entre os moradores da Fazenda dos Castores.


A curiosidade deu lugar à reverência.


O mistério transformou-se em sinal.


As pessoas passaram a permanecer próximas da imagem.


Rezavam.


Conversavam.


Refletiam sobre o significado daquilo que estavam presenciando.


Muitos acreditavam que Deus estava tentando comunicar algo.


Não através da madeira.


Não através da escultura em si.


Mas através dos acontecimentos que cercavam sua presença.


A notícia espalhou-se rapidamente.


As famílias que viviam em diferentes partes da fazenda começaram a ouvir os relatos.


Pessoas passaram a visitar a residência de Francisco para ver com os próprios olhos aquilo que estava acontecendo.


Naquela noite, segundo a tradição preservada pela família Castor, muitos permaneceram reunidos.


Rezando.


Cantando.


Recitando o terço.


Refletindo.


E aguardando.


Enquanto isso, uma pergunta permanecia sem resposta.


Por que a imagem insistia em voltar?


Nem Francisco.


Nem os moradores.


Nem o padre.


Sabiam responder.


Mas muito em breve uma resposta seria apresentada.


Uma resposta simples.


Uma frase que atravessaria gerações.


Uma frase que mudaria para sempre a história da Fazenda dos Castores.


Uma frase atribuída ao sacerdote de São José do Rio Preto.


Uma frase que seria repetida durante décadas pelos descendentes da família Castor.


Mas essa já é a próxima parte da história.




Capítulo 11



Jesus quer ficar na fazenda



Após o segundo retorno da imagem, a inquietação tomou conta da Fazenda dos Castores.


Os moradores comentavam o acontecimento.


As famílias procuravam entender o que estava acontecendo.


As perguntas eram muitas.


As respostas, poucas.


Francisco Soares Castor encontrava-se diante de uma situação que jamais imaginara viver.


Não era um homem dado a fantasias.


Era um trabalhador.


Um agricultor.


Um homem acostumado a resolver problemas concretos.


Mas havia acontecimentos que escapavam à sua compreensão.


Mesmo assim, acreditava que ainda precisava procurar o padre uma última vez.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, após os acontecimentos daquele segundo retorno, Francisco voltou novamente a São José do Rio Preto.


Desta vez, porém, sem a intenção de insistir em uma explicação.


Seu objetivo era compreender qual deveria ser sua atitude diante daquilo que estava acontecendo.


Ao chegar à cidade, encontrou novamente o sacerdote.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, a conversa foi diferente das anteriores.


O padre já conhecia os acontecimentos.


Sabia que a imagem havia desaparecido da paróquia.


Sabia que ela havia retornado à Fazenda dos Castores.


Sabia que o fenômeno se repetira.


E compreendia que Francisco buscava orientação.


Foi então que, segundo a memória preservada pela família, o sacerdote pronunciou palavras que atravessariam gerações.


Palavras simples.


Mas profundamente marcantes.


Palavras que permaneceriam vivas muito depois que todos os presentes já tivessem partido deste mundo.


O padre teria dito:

— Francisco, não precisa trazer mais a imagem.


Por alguns instantes, Francisco permaneceu em silêncio.


O sacerdote então continuou:

— Jesus quer ficar com a família Castor.

— Jesus quer ficar na fazenda.


Segundo a tradição oral da família, essas palavras foram recebidas por Francisco não como uma ordem, mas como uma interpretação espiritual dos acontecimentos.


A imagem permaneceria onde estava.


Não porque a madeira possuísse algum poder próprio.


Mas porque os acontecimentos pareciam apontar para algo maior.


Para o sacerdote, aquilo era um sinal.


Um sinal de que a Fazenda dos Castores possuía um papel especial na vida religiosa daquela comunidade.


Francisco retornou para casa.


Dessa vez sem carregar a dúvida dos dias anteriores.


A imagem permaneceria na fazenda.


E a partir daquele momento uma nova etapa começaria.


Segundo os relatos preservados pelos descendentes, a varanda da residência de Francisco passou a ocupar um lugar central na vida da comunidade.


Foi ali que a imagem foi colocada.


Foi ali que as pessoas começaram a se reunir.


Foi ali que surgiram as primeiras orações coletivas ligadas aos acontecimentos.


Os moradores da fazenda passaram a visitar a residência de Francisco com frequência cada vez maior.


Alguns vinham rezar.


Outros vinham agradecer.


Outros simplesmente desejavam ver aquilo que se tornara assunto em toda a região.


A notícia continuava se espalhando.


Primeiro entre os moradores da Fazenda dos Castores.


Depois pelas propriedades vizinhas.


Mais tarde pelos caminhos que levavam a São José do Rio Preto.


Mas o aspecto mais importante daquele momento não estava na quantidade de pessoas que chegavam.


Estava na forma como eram recebidas.


Francisco não transformou sua casa em um lugar de cobrança.


Não transformou sua propriedade em um negócio.


Não transformou a curiosidade das pessoas em benefício próprio.


Segundo a tradição preservada pela família Castor, continuou sendo o mesmo homem que sempre havia sido.


Um homem de portas abertas.


Um homem acostumado a acolher.


Um homem disposto a compartilhar.


Sem perceber, estava lançando os primeiros alicerces daquilo que, anos mais tarde, se transformaria em uma das mais importantes manifestações de fé popular da região.


Mas naquele momento ninguém pensava em romarias.


Ninguém pensava em festas.


Ninguém pensava em multidões.


Existiam apenas pessoas simples reunidas em torno de uma mesma pergunta:

Por que aquilo estava acontecendo?


E embora ninguém possuísse todas as respostas, uma convicção começava a nascer no coração daquela comunidade.


A convicção de que Deus havia escolhido aquele lugar para realizar algo que ultrapassava a compreensão humana.


A Fazenda dos Castores jamais voltaria a ser apenas uma fazenda.


A partir daquele momento, tornava-se também um lugar de oração.


E os caminhos que levavam até ela começavam a ser percorridos por pessoas movidas pela fé.




Capítulo 12



A varanda de Francisco



Após a conversa com o padre em São José do Rio Preto, a vida na Fazenda dos Castores começou a mudar gradualmente.


Não foi uma mudança repentina.


Não aconteceu de um dia para o outro.


Foi um processo.


Um movimento que cresceu aos poucos.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, a imagem permaneceu na residência de Francisco Soares Castor.


Mais precisamente na área da casa onde as pessoas podiam vê-la com facilidade.


Era uma residência simples, como tantas outras construídas no interior paulista daquela época.


Mas havia algo que a tornava diferente.


Suas portas permaneciam abertas.


E foi justamente ali que tudo começou.


Nos primeiros dias, os visitantes eram poucos.


Moradores da própria fazenda.

Vizinhos.


Parentes.


Pessoas que haviam ouvido falar da imagem encontrada durante a abertura do poço.


Alguns vinham por curiosidade.


Outros vinham por devoção.


Outros simplesmente queriam ouvir a história contada pelo próprio Francisco.


Mas conforme as semanas passavam, o número de visitantes aumentava.


A notícia atravessava cercas.


Atravessava lavouras.


Percorria caminhos de terra.


Chegava a outras propriedades.


Chegava a São José do Rio Preto.


E cada nova pessoa que chegava levava a história para outro lugar.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, começou a surgir um costume.


As pessoas reuniam-se diante da imagem para rezar.


Rezavam o terço.


Rezavam o rosário.


Cantavam hinos religiosos.


Faziam orações espontâneas.


Agradeciam bênçãos recebidas.


Apresentavam seus pedidos a Deus.


E assim, pouco a pouco, a varanda da casa de Francisco transformou-se em um ponto de encontro.


Não apenas para os moradores da Fazenda dos Castores.


Mas também para pessoas vindas de outras regiões.


O que acontecia ali era algo simples.


Não havia grandes estruturas.


Não havia organização formal.


Não havia templos.


Não havia qualquer riqueza.


Existiam apenas pessoas reunidas pela fé.


Pessoas que encontravam naquele lugar um ambiente de oração, esperança e acolhimento.


E talvez o mais importante de tudo fosse justamente a forma como eram recebidas.


Segundo a tradição preservada pela família, Francisco jamais fechou as portas de sua casa para aqueles que chegavam.


Pelo contrário.


Recebia todos com respeito.


Recebia todos com hospitalidade.


Recebia todos como convidados.


Essa característica acabaria marcando profundamente a identidade da Fazenda dos Castores.


Com o passar do tempo, muitos visitantes começaram a percorrer longas distâncias para chegar até ali.


Alguns vinham a cavalo.


Outros em carroças.


Outros simplesmente caminhavam durante horas.


Muitos passavam o dia inteiro na propriedade.


Alguns permaneciam até o anoitecer.


Outros chegavam para participar das orações noturnas.


Segundo os relatos familiares, era comum que grupos inteiros permanecessem reunidos em vigília.


Rezando.


Conversando.


Compartilhando histórias.


Refletindo sobre os acontecimentos que haviam levado a imagem até aquele lugar.


A casa de Francisco transformava-se gradualmente em um espaço comunitário.


Mas junto com as orações surgia também uma necessidade prática.


As pessoas precisavam ser acolhidas.


Precisavam descansar.


Precisavam se alimentar.

E essa necessidade cresceria cada vez mais.


Francisco percebeu que aqueles visitantes não eram apenas curiosos de passagem.


Muitos viajavam grandes distâncias.


Muitos chegavam cansados.


Muitos não possuíam recursos.


E foi então que uma das características mais marcantes da Fazenda dos Castores começou a se manifestar com ainda mais força.


A hospitalidade.


Aquilo que já fazia parte da vida da comunidade passaria a ocupar um papel central nos anos seguintes.


Acolher.


Receber.


Compartilhar.


Alimentar.


Esses valores começariam a caminhar lado a lado com a fé.


Sem perceber, Francisco Soares Castor e os moradores da fazenda estavam lançando os alicerces de algo muito maior do que imaginavam.


O que começara em uma varanda logo ultrapassaria os limites da residência.


Depois ultrapassaria os limites da fazenda.


Depois ultrapassaria os limites da própria região.


Mas tudo teve início ali.


Na simplicidade de uma casa rural.


Na varanda de Francisco.


No lugar onde homens e mulheres simples se reuniam para orar, agradecer e buscar a presença de Deus.


E onde uma comunidade inteira começava a descobrir que a fé também podia ser vivida através do acolhimento ao próximo.




Capítulo 13



Os caminhos dos romeiros



A notícia espalhou-se de forma silenciosa.


Não havia jornais divulgando os acontecimentos.


Não havia rádios.


Não havia telefone.


Não havia qualquer meio moderno de comunicação.


Mesmo assim, a história da Fazenda dos Castores começou a percorrer caminhos cada vez mais distantes.


Naquele tempo, as notícias viajavam através das pessoas.


Uma conversa na venda.


Um encontro na estrada.


Uma visita entre parentes.


Um relato contado após uma celebração religiosa.


Era assim que as histórias se espalhavam pelo interior.


E foi assim que a história da imagem encontrada por Francisco Soares Castor começou a alcançar outras comunidades.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, os primeiros visitantes vieram das propriedades vizinhas.


Eram pessoas que desejavam ouvir a história diretamente da boca de Francisco.


Queriam ver a imagem.


Queriam conhecer o local onde tudo havia acontecido.


Queriam rezar.


Queriam compreender o significado daqueles acontecimentos.


Mas com o passar do tempo, as distâncias começaram a aumentar.


A notícia chegou a São José do Rio Preto.


Chegou a pequenos povoados da região.


Chegou às famílias que viviam espalhadas pelas áreas rurais do Noroeste Paulista.


E junto com a notícia vieram as pessoas.


Algumas chegavam sozinhas.


Outras vinham acompanhadas de parentes.


Algumas percorriam longas distâncias a cavalo.


Outras viajavam em carroças.


Muitas caminhavam durante horas sob o sol.


Não existia um dia específico para as visitas.


Não existia um calendário.


Não existia uma programação oficial.


As pessoas simplesmente chegavam.


Chegavam em dias de semana.


Chegavam aos sábados.


Chegavam aos domingos.


Chegavam pela manhã.


Chegavam ao entardecer.


E, às vezes, chegavam até mesmo durante a noite.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, a Fazenda dos Castores passou a receber visitantes praticamente todos os dias.


A varanda de Francisco tornava-se cada vez mais movimentada.


As rodas de conversa aumentavam.


As orações tornavam-se mais frequentes.


Os grupos de fiéis cresciam.


Muitos visitantes traziam consigo histórias de graças alcançadas.


Outros apresentavam pedidos.


Alguns buscavam conforto em momentos difíceis.


Outros apenas desejavam agradecer.


A cada nova visita, a fama da Fazenda dos Castores aumentava.


Mas havia algo que chamava a atenção daqueles que chegavam.


Não era apenas a imagem.


Não era apenas o relato de seu retorno à fazenda.


Era a forma como eram recebidos.


Segundo a tradição preservada pela família, ninguém era tratado como estranho.


Todos encontravam acolhimento.


Todos encontravam espaço para permanecer.


Todos encontravam alguém disposto a ouvir suas histórias.


Francisco compreendia que muitas dessas pessoas viajavam longas distâncias.


Algumas saíam de casa antes do amanhecer.


Outras passavam horas enfrentando estradas difíceis.


Algumas chegavam cansadas.


Outras chegavam com fome.


E essa realidade começou a gerar uma nova necessidade.


A necessidade de cuidar daqueles que chegavam.


A necessidade de acolher não apenas espiritualmente, mas também fisicamente.


A comunidade da Fazenda dos Castores começou então a perceber que sua missão estava crescendo.


Já não bastava apenas abrir as portas da casa.


Era preciso abrir também os braços da comunidade.


As famílias passaram a colaborar de maneira cada vez mais intensa.


O espírito de cooperação que já existia entre os moradores agora era colocado a serviço dos visitantes.


Sem perceber, a Fazenda dos Castores começava a assumir um papel que ultrapassava os limites de uma simples comunidade rural.


Tornava-se um lugar de encontro.


Um lugar de oração.


Um lugar de esperança.


Um lugar onde pessoas de diferentes origens se reuniam movidas pela fé.


Mas quanto mais pessoas chegavam, maior se tornava a responsabilidade daqueles que as recebiam.


Logo surgiria uma nova pergunta.


Como alimentar tanta gente?


Como acolher tantos visitantes?


Como oferecer abrigo para aqueles que percorriam longas distâncias?


As respostas para essas perguntas transformariam profundamente a vida da Fazenda dos Castores.


E dariam origem a uma das características mais marcantes de sua história.


A hospitalidade que alimentava o corpo e fortalecia a alma.




Capítulo 14



O pão compartilhado



À medida que os caminhos levavam cada vez mais pessoas até a Fazenda dos Castores, uma nova realidade começava a surgir.


Aqueles visitantes não chegavam apenas para ver a imagem.


Não chegavam apenas para rezar.


Não chegavam apenas para ouvir histórias.


Muitos percorriam longas distâncias.


Passavam horas viajando.


Alguns saíam de casa ainda antes do nascer do sol.


Outros chegavam ao final do dia, cansados da jornada.


E todos possuíam algo em comum.


Precisavam ser acolhidos.


Segundo a tradição oral preservada pela família Castor, Francisco Soares Castor compreendeu rapidamente essa necessidade.


Os visitantes não podiam ser tratados apenas como observadores.


Eram pessoas.


Homens.


Mulheres.


Crianças.


Famílias inteiras.


Pessoas que vinham movidas pela fé.


Por essa razão, aquilo que já fazia parte da cultura da Fazenda dos Castores tornou-se ainda mais importante.


A hospitalidade.


Francisco passou a mobilizar os moradores da fazenda para receber aqueles que chegavam.


As famílias colaboravam como podiam.


Uns ofereciam alimentos.


Outros ajudavam na preparação das refeições.


Outros auxiliavam na organização dos espaços.


A responsabilidade era compartilhada.


Como tantas outras vezes na história da fazenda, a comunidade trabalhava unida.


Segundo os relatos transmitidos pelos descendentes, grandes quantidades de alimentos começaram a ser preparadas.


Arroz.


Feijão.


Mandioca.


Batatas.


Carnes.


Frutas.


Tudo aquilo que a terra produzia era colocado à disposição daqueles que chegavam.


As refeições eram simples.


Mas abundantes.


Não havia luxo.


Havia generosidade.


Muitos visitantes jamais esqueceriam a forma como eram recebidos.


Não encontravam apenas um local de oração.


Encontravam uma mesa.


Encontravam alimento.


Encontravam acolhimento.


E encontravam pessoas dispostas a servir.


Com o passar do tempo, a necessidade de hospedagem também começou a crescer.


Alguns visitantes percorriam distâncias tão grandes que não conseguiam retornar para casa no mesmo dia.


Outros desejavam permanecer por mais tempo participando das orações e vigílias.


Diante dessa realidade, segundo a tradição preservada pela família Castor, começaram a surgir pequenos dormitórios e construções simples destinadas a receber os viajantes.


Nada sofisticado.


Nada grandioso.


Apenas o suficiente para oferecer descanso àqueles que vinham de longe.


Era uma extensão natural daquilo que Francisco acreditava.


Quem chegava deveria ser recebido.


Quem precisava descansar deveria encontrar abrigo.


Quem tinha fome deveria encontrar alimento.


Pouco a pouco, a Fazenda dos Castores começou a ser conhecida não apenas pelos acontecimentos ligados à imagem.


Mas também pela forma como tratava as pessoas.


A hospitalidade tornou-se parte inseparável da devoção.


E algo curioso começou a ser percebido pelos moradores.


Segundo os relatos familiares, a produção da fazenda parecia prosperar.


As colheitas eram abundantes.


Os cultivos cresciam.


Os alimentos multiplicavam-se.


As necessidades da comunidade continuavam sendo atendidas.


Para muitos moradores, aquilo era visto como uma bênção de Deus.


A terra continuava produzindo.


As famílias continuavam trabalhando.


E sempre parecia haver o suficiente para compartilhar.


Os mais antigos passaram a enxergar uma relação entre o acolhimento oferecido aos visitantes e a prosperidade que experimentavam.


Não como uma troca.


Não como uma recompensa.


Mas como uma consequência natural da generosidade.


Quanto mais compartilhavam, mais percebiam que a comunidade permanecia forte.


Quanto mais acolhiam, mais pessoas chegavam.


Quanto mais pessoas chegavam, mais a fama da Fazenda dos Castores se espalhava.


Aquela combinação de fé, trabalho e hospitalidade estava criando algo único.


Os visitantes não retornavam para suas cidades falando apenas da imagem.


Falavam da recepção.


Falavam das refeições.


Falavam da bondade das famílias.


Falavam da forma como eram tratados.


E a cada novo relato, mais pessoas desejavam conhecer aquele lugar.


A Fazenda dos Castores começava a transformar-se em um ponto de referência para toda a região.


Mas o crescimento constante dos visitantes logo apresentaria um novo desafio.


Já não bastava acolher os romeiros que chegavam ao longo do ano.


Surgia a necessidade de reunir todos em uma grande celebração.


Uma celebração que expressasse a fé da comunidade.


Uma celebração que permitisse acolher ainda mais pessoas.


Uma celebração que marcasse para sempre a história dos Castores.


Era o início daquilo que, anos mais tarde, ficaria conhecido como a Festa dos Castores.







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